Lo desahogo de Zheimer Al zheimer

 

Alzheimer

Estás aí de novo. Sorri, pois triunfaste sobre meu corpo e nem ao menos lembro desde quando habitas meu espelho todos os dias pela manhã. És o mal que consome minha memória, que devora minhas certezas e me atira num futuro inferno de estranhos penosos e patéticos tentando me ajudar em não sei o quê, nem por quê. Não saberás o quanto os amei. Não saberás o quanto te amei. O quanto tive orgulho de teu sucesso. O quanto me feri com tuas feridas. O quanto cultivei teus belos cabelos… hoje grisalhos. Não sabes que tua sorte é também a tua própria morte. Que acabarás junto comigo, sem direito a um último delírio de lembrança e nostalgia em teus últimos segundos. Morrerás sem saber o que é dignidade, pois, quando chegar tua hora, não terás passado.

Fizeste pensarem de mim um velho. Lentamente, castraste-me a liberdade, sufocaste minha independência. Deixaste-me desorientado, e agora não posso mais atravessar a rua, pois não haverá em minha memória o caminho de volta. Tua loucura, agora também é minha. Não te reconheço, não me reconheço. Tornaste-me um prostrado passivo, um apático desinteressado da vida. Com meus amigos, deixaste-me irritado, egoísta, agressivo. Estás em min, mas não possuo nada de ti.

Roubaste minha confiança, minha criatividade, meus valores. Trancaste para sempre a porta do quarto que guarda meus segredos. Tantos livros, tantos discos. Tiraste de mim as melodias que ressoavam de meus dedos, hoje já não tão ágeis para vibrar as cordas. Tornaste-me um compositor de frases curtas, palavras perdidas, palavras repetidas, que um dia, quem sabe, uma mente também amaldiçoada por teu mal, compreenderá o que dizem.

Apagas-te o brilho desta pobre mulher que sofre na cama ao meu lado, cujo esperava guardar para sempre, num suposto lugar mais seguro dentro de mim. Não me deixas-te nada. Morrerei, tu morrerás, todos morrerão. Mas não penses que tua vitória serás plena. De uma coisa tenhas certeza. Não terás teu mérito. A ti, deixo apenas este desabafo e esta dose de cicuta em meu Campari, que roubar-te-á o gostinho de destilar minhalma até a última gota.

2 Respostas to “Lo desahogo de Zheimer Al zheimer”

  1. Guilherme Coelho Says:

    Um conto da época da faculdade em homenagem àquelas pessoas que sofrem de Alzheimer ou que têm suas vidas apagadas por opção, pressão ou simplesmente descuido. Soube que está passando um filme sobre isso, mas ainda não tive a oportunidade de assistir. Abraço a todos.

  2. Eu queria comentar que… esqueci. Na verdade nao sei o que dize sobre essas coisas.

    Ah, disponibilizei o video do Duchamp no Dublês (da apresentação de arte concentual que vc e a Carol faltaram :/)

    abrazoz

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