Pequenos retalhos esquecidos de passados inesquecíveis

Nela Vicente - Retalhos de Ternura

Verificava os dois bolsos da calça o Acaso antes de sair atrás de um ocaso para sua certeza. Norah acertava os últimos fios no penteado antes de examinar por completo cada centímetro quadrado de sua imagem e sentimentos refletidos no espelho, prévios segundos para os minutos mais felizes de sua vida. Otto Ouvia aquela voz lasciva e latente, apaixonando-se pela alma misteriosa figurada naquelas ondas sonoras e vivendo o mais efêmero caso de amor platônico enquanto percorria o universo entre o elevador e a sala de espera, onde sua consciência teria tempo infinito para martirizá-lo. A Dona levantava-se do banco pela segunda vez no intervalo entre a conversa com outra senhora e a chegada do ônibus para sua cidade, o silêncio de uma amizade recente a incomodava. Gustavo parava ao lado da porta do escritório onde seu pai lia relatórios jurídicos com seus óculos quase despencando do nariz, por pouco hesitou e quase desistiu, sabia que palavras adestradas sempre se rebelam nessas horas. Caio clamava em pensamento um palavrão antes de se dirigir a ela, que tentava encontrar uma forma de se defender do que nem podia imaginar, mas fingia ter perdido o olhar em qualquer distração inconsciente. Francis fixava os olhos na projeção de suas sombras 2 em 1, tentando separar corpo e espírito e deleitando-se em seus últimos segundos de razão até deletar-se e entregar-se mais uma vez àquele mar de água doce. Jorge recostava-se ao banco defronte à água cinzenta e carregada de pedaços de gelo do rio Charles, onde não havia vivalma…

El Suicida

(Jorge Luiz Borges)

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.

3 Respostas to “Pequenos retalhos esquecidos de passados inesquecíveis”

  1. Um niilismo bonito e triste. “No quedará la noche / Moriré y conmigo la suma / Del intolerable universo” muy belo, pibe. O segundo me fez lembrar um filme argentino “Elza e Fred”, dois velinhos com essa idade, 80 e poucos anos. Elza tem 83 anos e faz hemodialise, tem poucos dias de vida. Ela inventa histórias, conta mentiras, dá calotes em restauranres caros, viaja para Madrid. Não se preocupa em cuidar de sua saúde fisica, mas mental. Comete todos os excessos, um deles foi se apaixonar pelo Velinho Fred.

    abrazozz

  2. Quanto aos pequenos retalhos esquecidos de passados inesquecíveis… Quem é ela, merecedora dos meus palavrões, nos quais aclamaria-os no meio do ventre-peito com um punhal de açaí e um punhado de pixels. Fiquei curioso, e com um leve sorriso sociopata. Quanto a Francis, ela pode dissimular uma mulher sem espírito, apenas corpo. Uma colombina qualquer. Quanto pode ser o mar mais doce do mundo. ave, francis. Ela cabou de me dizer que esqueci de por um h nos velhinhos. Mais uma vez, ave, Francis.

  3. Guilherme Coelho Says:

    Caio,

    Valeu a dica do filme. A Karol já tinha falado muito bem sobre ele, vou procurar assistir. Agora, é claro que você sabe quem é merecedor dos teus delírios. Além do mais, se eu revelasse, seria muito bom para o seu ego, mas privaria outros possíveis Caios de resolverem seus impasses com seus superegos. O mesmo vale para Francis. Abração rapaz!

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