Devorando o Angu de Sangue

Marcelino Freire, de blogueiro para blogueiro, reservo-me o direito de publicar aqui minha resenha crítica sobre o seu livro “Angu de Sangue”. A você, fica minha leitura sobre seu texto (entenda como um elogio… ou não). Aos demais leitores, uma dica sobre a obra de um grande escritor contemporâneo (mesmo se não gostarem da crítica, leiam o livro).

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Angu de Sangue 

Os ratos, os vermes, os fungos, as cáries, as moscas, a rêmora, o abutre. A literatura de Marcelino Freire rasteja, caça, persegue, absorve e devora os restos da vida humana, num comensalismo antropofágico que se esbalda do melhor banquete de sobras, o submundo de qualquer metrópole. À Marcelino interessam os restos, as sobras, as sombras de nossa consciência varrida pela hipocrisia burguesa. Em Angu de sangue (Ateliê Editorial, 2005), Marcelino Freire põe à mesa o prato mais caro do banquete, cabeça de gente. Cabeça de piranha, cabeça de macaco, cabeça servida de miséria ao molho de sangue com de angu. 

Dezessete contos e dezessete imagens intercalados. As palavras constroem as cenas, desconstroem o ser humano e depois se perdem num sarau de significantes e significados. As imagens não dizem nada. Quem diz somos nós, leitores, réus. Elas estão lá apenas para servir. Servir nossas vistas. Assim como as palavras. Nós nos servimos de suas palavras de sangue e seus significados indigestos. Tragamos cada caso, cada acaso, cada ocaso de relacionamento, cada porta na cara de um mendigo, cada desejo guardado à chave que abre a porta de nosso quarto dos segredos.   

Este Angu de Sangue também é feito de farinha . A mesma farinha das hóstias que redimem nossas almas depois de enxotarmos um mendigo e pedirmos que volte outro dia. Que lava nossos pecados depois de desejarmos o corpo quente e sadio do menino de dezesseis anos à memória fria e ultrapassada de momentos com o marido pré-enterrado. Mas é também a mesma farinha que receita o pão que o diabo amassou, o santo cuspiu e nós, em nossa divina caridade, expurgamos de nossos lares supostamente limpos para podermos olhar no espelho escondendo a culpa de saber que, no fim, somos todos farinha do mesmo saco.

Uma resposta to “Devorando o Angu de Sangue”

  1. Guilherme,
    Faço questão de concordar com você ipsis literis, palavra por palavra.
    Inclusive, por conta de sua resenha crítica que tanto gostei, vou ler o livro do Marcelino.
    Pode dizer a ele, que, por bem ou por mal, ganhou um leitor: descomprometido e crítico.
    Abraço virtual,
    Gustavo

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